sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Da metereologia e das nuvens



Cada vez se ouve falar mais de docuficção e de romances de não-ficção. Creio que a tendência deriva de um facto essencial: não conseguimos suportar a vida apenas com base no quotidiano mas também não nos identificamos com histórias sem carnalidade. É preciso encantar novamente a vida e despertar do longo sono os deuses adormecidos e silentes.


           
O METEREOLOGISTA de Olivier Rolin poderá encaixar nessa categoria de romance de não-ficção. Mas o único mérito reside no facto do Rolin ter encontrado uma história impressionante – a história verídica de Alexei Feodossevitch Vangengheim, o metereologista da URSS, acusado, em 1934, de sabotador do socialismo e deportado para um campo de concentração e, que até à véspera da sua morte atroz, enviava à pequena filha Eleonora desenhos, herbários e adivinhas. A reprodução a cores de parte dessa correspondência, belíssimamente ilustrada, foi afinal a razão que me levou a comprar este livro.


            
A leitura flui, de forma dolorosa, indignada, pois estamos sempre a recordar-nos que aquela história aconteceu realmente – e a perguntar-nos, vezes e vezes sem conta, como foi possível? Como é possível? O livro vale sem dúvida pela história que nos revela e pela russofonia do autor mas, ainda assim, senti em certas passagens que faltava a Olivier Rolin unhas para alcançar a grande beleza do romance de não-ficção. Parece mais um diário, com as recolecções possíveis dos factos e algumas divagações, como se o autor tivesse medo de arriscar uma fusão mais empática com as suas personagens. E, no entanto, pergunto-me, será possível empatizar-se com um real tão pobre poeticamente, tão ridiculamente violento e triste? Dificilmente, creio.
            
E talvez que este livro não me tenha preenchido por completo, porque me recordava repetidamente O CASO DO CAMARADA TULAEV, muito provavelmente o melhor romance de não-ficção sobre o grande terror das purgas estalinistas. A história de Vangengheim repete o que já tinha aprendido nessa obra-prima: o motivo rídiculo pelo qual se é acusado de sabotagem do socialismo, os mecanismos dessa imparável engrenagem da morte que faz com que os inocentes acabem por confessar os crimes imaginários de que são acusados, os detractores e fuziladores que acabam também eles por ser denunciados e fuzilados, os Matveiev dessa época assombrosa…
            
É altura de apresentar Mikhail Matveiev, executor do NKVD (…). É pela sua mão, pois faz ponto de honra de não delegar a tarefa de matar, nunca se cansa de sangue, é pela sua mão que vai morrer Alexei Feodossievitch Vangengheim (…). Durante a guerra civil, participa na tomada do Palácio de Inverno (que não foi de modo algum o evento heróico fabricado por Einsenstein), mas é enquanto encarregado das execuções, um cargo que tem futuro, que integra a polícia política em 1918. Como recompensa pelo seu trabalho, que faz com paixão (ele não é de todo um «sabotador»), recebe distinções que têm nome de revólveres: Browning, Walter. Relógios de ouro, aparelhos de radio Radiola. Mimos para um carrasco. Toma portanto conta em Kem da coluna dos mil cento e dezasseis condenados das Slovoki (…).

            O lugar da execução é «na floresta», sem mais pormenor – não há outra coisa senão floresta em torno de Medvejegorsk. Cavam grandes valas, precipitam-se os condenados para dentro delas, viram-nos de barriga para baixo e matam-nos com um tiro na nuca. Não «alguém» mas ele, pessoalmente, Matveiev. Quando lhe perguntam se viu alguns dos seus homens dar uma sova aos condenados, responde que de facto aconteceu mas não chegou a ver porque estava em baixo, na cova, com o seu revólver Nagant. De vez em quando, quando se sente cansado, quando tem vontade de descomprimir, de fumar um cigarro, volta a subir e passa a tarefa ao seu adjunto, o tenente Alafer, mas, regra geral, é ele que se encontra no fim da cadeia, as suas botas na lama sanguinolenta, cheia de miolos. Todos os dias, ou antes todas as noites, porque aquelas coisas têm lugar à noite, nas noites de vinte e sete de outubro de 1937 e de um a quatro de novembro (…), ele avia entre duzentos e duzentos e cinquenta contrarrevolucionários. E, para além disso, tem de assinar as declarações que atestam que cada sentença foi executada. Em suma, trabalha a mata-cavalos, mereceu o seu relógio de ouro.

Como foi possível? Como é possível?

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Conselhos preciosos para o grande frio

Saibas, amado filho, que, se te encantes de alguém, não deves ceder indiscriminadamente ao prazer, estejas tu bêbedo ou sóbrio, porque é sabido que o sêmen que de ti irrompe é sempre germe de almas e pessoas. Não te entregues ao prazer inebriado de vinho, é coisa danosa e deletéria; melhor esperar, ao menos, que os efeitos do álcool passem. E não deixes que o prazer comande sempre que fiques excitado, pois esse é um comportamento verdadeiramente animalesco, e os animais não conhecem nem tempo nem lugar. Os homens, ao contrário, devem sempre saber o momento justo, diferenciando-se assim das feras.
 Em relação à escolha entre garotos e mulheres, não limites tua preferência a um único gênero, garotos ou mulheres, para que tu possas obter prazer de ambos os sexos, evitando assim a inimizade de um ou de outro.
 Os excessos, como te disse, são danosos, mas, saibas que a abstinência também tem seus perigos. Qualquer coisa que faças deve ser feita de acordo com teu desejo e não por obrigação, de modo que o dano seja menor.
 Havendo desejo ou não, é todavia aconselhável que te controles durante o grande calor e o grande frio. É nas duas estações extremas que as paixões produzem os efeitos mais deletérios, principalmente para os mais velhos. De todos os momentos do ano, ao invés, é a primavera, com seu clima temperado e suas fontes túrgidas, a estação mais propícia, onde a face do mundo se mostra feliz e faceira. E assim como o macrocosmo, graças à primavera rejuvenesce nosso corpo, que é o microcosmo. Os humores do corpo tornam-se temperados e o sangue de nossas veias se dilatam, assim como o sêmen nos lombos. Mesmo sem uma vontade precisa, irresistível se torna a busca por prazeres e incontrolável a necessidade de regozijos e encontros, mas se autêntico é o ardor, menor é o dano.
E assim a vida segue. Se possível não dês vazão a teus líquidos vitais no calor tórrido e no inverno rígido, e caso percebas um aumento do ardor procura reestabelecer o equilíbrio com uma dieta harmoniosa. Durante o verão dá predileção aos garotos, e reserva o inverno às mulheres, respeitando sempre um sano equilíbrio sazonal. E, se neste discurso fui breve, é porque mais não serve.
Kay Ka’us ibn Iskandar (Qābūs-nāme, séc.XI)

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Der Dopplegänger





«O desconhecido estava sentado à sua frente, também de sobretudo e chapéu, na sua cama, sorria ligeiramente, e, franzindo um pouco os olhos, acenou-lhe amigavelmente com a cabeça. O senhor Goliádkin queria gritar, mas não pode — protestar de alguma maneira, mas não lhe chegavam as forças. Tinha os cabelos em pé e sentou-se no seu lugar, insensível de horror. E de resto havia razão para isso. O senhor Goliádkin reconheceu completamente o seu amigo notcurno. O seu amigo nocturno não era outro senão ele próprio — o próprio senhor Goliádkin, outro senhor Goliádkin, mas exactamente como ele — numa palavra, aquilo a que se chama o seu duplo em todos os aspectos…»


É do mestre e vale cada pagina. Embora aparente ser um Dostoievski menor, lê-se de uma assentada, com aflição, furor e abjecção. Foi publicado quando Dostoievski tinha apenas 24 anos: já tinha começado a grande escavação psicológica donde extrairia Raskolnikóv e os irmãos Karamázov . молодец!

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

os mistérios do Oriente



(…) e foi assim que os nossos antepassados, obrigados a viver quer quisessem quer não em divisões escuras, descobriram um dia o belo no meio da sombra, e depressa a utilizaram para obter efeitos estéticos.

(…)

A maquilhagem incluí, entre outras coisas, o escurecimento dos dentes [técnica conhecida como ohaguro e que consistia em pintar os dentes com tinta negra]; podemos perguntar-nos se o objectivo desta operação não seria o de, depois de preenchido de obscuridade todo o espaço à excepção do rosto, colocar um toque de sombra até mesmo na boca.

(…)

Mas qual a razão para esta tendência de procurar o belo no obscuro com tanta força se manifestar apenas nos Orientais? Ainda não há muito, também o Ocidente ignorava a electricidade, o gás, o petróleo, mas, tanto quanto sei, nunca sentiu a tentação de se deliciar com a sombra. Desde sempre os espectros japoneses são desprovidos de pés; os espectros do Ocidente têm pés, mas, em contrapartida, todo o seu corpo é, ao que parece, translúcido. Fosse ou não fosse por pormenores destes, o que constatamos é que a nossa própria imaginação se move em trevas negras como laca, enquanto os Ocidentais atribuem até aos seus espectros a limpidez do vidro.

(…)

Qual poderá ser a origem de uma diferença de gostos tão radical? Pensando bem, é porque nós, Orientais, procuramos acomodar-nos aos limites que nos são impostos, que desde sempre nos satisfazemos com a nossa presente condição; consequentemente, não sentimos repulsa alguma pelo que é obscuro, resignamo-nos a ele como a algo de inevitável: se a luz é fraca, pois que o seja! Mais, afundamo-nos com delícia nas trevas e descobrimos-lhe uma beleza própria.

Pelo contrário, os Ocidentais, sempre à espreita do progresso, agitam-se incessantemente na procura de uma condição melhor que a actual. Sempre em busca de uma claridade mais viva, afadigaram-se, passando da vela ao candeeiro de petróleo, do petróleo ao bico de gás, do gás à iluminação eléctrica, para cercar o menor recanto, o último refúgio da sombra.

(…)

Pensem no sorriso de uma jovem mulher à luz vacilante de uma lanterna, que, de tempos a tempos, entre uns lábios de um azul irreal de fogo-fátuo, fazia cintilar dentes de laca negra: poder-se-á imaginar rosto mais branco que esse? Eu, pelo menos, vejo-o mais branco que a brancura de qualquer mulher branca, nesse universo de ilusões que trago gravado no cérebro.

A brancura do homem branco é uma brancura translúcida, evidente e banal, enquanto aquela é uma brancura de certa forma desligada do ser humano. Pode ser que uma brancura assim definida não tenha qualquer existência real.

educação sentimental para veteranos



Gostei muito de A CASA DAS BELAS ADORMECIDAS e não tenho a certeza de conseguir explicar bem. Trata-se de uma daquelas obras-primas que consegue submergir-nos completamente, envolvendo-nos numa atmosfera única, redonda, imaculada e vítrea. Qual redoma de cristal, nocturna e azulada, onde jovens mulheres nuas dormem profundamente sob o efeito de poderosos narcóticos, abandonadas na sua inconsciência à contemplação por homens idosos.

A edição portuguesa é apresentada por uma introdução de Yukio Mishima, que começa por afirmar o seguinte: «Parece haver, entre as obras dos grandes escritores, aquelas que poderiam ser chamadas do obverso ou exterior, de significação à superfície, e aquelas do reverso ou interior, de significação oculta; ou poderíamos compará-las ao Budismo exotérico e esotérico! No caso de Kawabata, Terra de Neve inclui-se na primeira categoria, enquanto A Casa das Belas Adormecidas é seguramente uma obra-prima esotérica.»

Na minha biblioteca mental, A CASA DAS BELAS ADORMECIDAS mora ao lado de GOLPE DE MISERICÓRDIA: dois tratados preciosos e voláteis sobre as esquivas ligações entre o erotismo, a transgressão e morte. Pois nas terras áridas dos maiores mistérios, o esforço mais recompensado é aquele que arrisca apenas o voo rasante da insinuação.

um livro do caralho e o melhor lançamento do ano





A Criada do Albergue do Pé Quebrado

Ela é uma bela, uma linda rapariga
Por quem enlouquece toda a gente em Riga
Ela é a criada do Pé Quebrado
Por um óbolo lhe tirei o toucado
Por dois tostões e meio… Por dois tostões e meio
Pois então, que fizestes? Apalpei-lhe um seio
E por um escudo vosso, um escudo de lei
Que haveis feito depois? O seu cu espreitei
E por dois escudos, então, que pudeste fazer?
Ora essa, tomar-lhe a cona e foder.
Assim pelo óbulo, pelos escudos e pelos tostões
Tive mama, cu e cona, mais sífilis nos colhões
E tudo isto num ápice, é bom fazer notar
Porque o homem que a amparou
Dez vezes esta soma pagou
E seis meses suspirou para o mesmo alcançar.
Diderot (1773)

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

I would rather not



 “As minhas emoções iniciais tinham sido de pura melancolia e sincera compaixão; mas, à medida que a noção do desamparo de Bartleby se agigantou na minha imaginação, essa melancolia transformou-se em medo, e a compaixão em repulsa. É muito verdade, e também terrível que, até certo ponto, a evocação ou o espectáculo da infelicidade convoca os nossos melhores sentimentos; mas em certos casos, e para lá de certo ponto, deixa de ter esse efeito. Erra quem atribui invariavelmente este facto ao inerente egoísmo do coração humano. Ele provém antes do desespero em remediar um mal excessivo e de natureza orgânica. Para uma criatura sensível, a compaixão representa amiúde o mesmo que sofrimento. E quando por fim compreendemos que essa compaixão não pode gerar um auxílio efectivo, o senso comum manda que nos livremos dela.”

A buen paso



Robert Walser ocupa um lugar privilegiado no meu panteão de escritores, tanto pela sua escrita como pela sua biografia. Há muito que queria ler Der Spaziergang; assim, quando encontrei um exemplar em Barcelona no dia de Sant Jordi, tratei de o oferecer a mim mesma.

Declaro que una hermosa mañana, ya no sé exactamente a qué hora, como me vino en gana dar un paseo, me planté el sombrero en la cabeza, abandoné el cuarto de los escritos o de los espíritus, y bajé la escalera para salir a buen paso a la calle (…). El mundo matinal que se extendía ante mis ojos me parecia tan bello como si lo viera por primera vez. Todo lo que veía me daba la agradable impresión de cordialidade, bondad y juventud (…).

Pero basta por completo con que yo mismo sepa lo que soy, y con que sea yo mismo el mejor informado esté sobre mi persona. A menudo las apariencias engañan, señor mio, y lo mejor es dejar el juicio sobre una persona a esa misma persona. Nadie puede conocer tan bien como él mismo a un hombre que ha visto e vivido tanto. A veces ando errante en la niebla y en mil vacilaciones y confusiones, y a menudo me siento miserablemente abandonado. Pero pienso que es bello luchar. Un hombre no se siente orgulloso de las alegrías y del plácer. En el fondo lo único que da orgullo y alegría al espíritu son los esfuerzos superados con bravura y los sufrimientos soportados con paciencia. Pero no gusta derrocar palabras a este respecto. Qué hombre honrado no ha estado desvalido nunca en su vida, y qué ser humano ha mantenido por completo intactos a lo largo de los años sus esperanzas, planes, sueños? Dónde está el alma cuyos anhelos, osados deseos, dulces y elevadas concepciones de la felicidad se cumplieron, sin tener que hacer descuentos en ellas?

(…) Yo me detenía y escuchaba, y de repente se apoderó de mí un inefable sentimiento del mundo y una sensación de gratitud, unida a él, que brotaba del alma com violencia (…) Los pasos descalzos en el suelo agradable se volvieron plácer, y el silencio encedía oraciones en el alma sentiente (…).


¿Pasear ¿respondí yo¿ me es imprescindible, para animarme y para mantener el contacto con el mundo vivo, sin cuyas sensaciones no podría escribir media letra más ni producir el más leve poema en verso o prosa. Sin pasear estaría muerto, y mi profesión, a la que amo apasionadamente, estaría aniquilada. Sin pasear y recibir informes no podría tampoco rendir informe alguno ni redactar el más mínimo artículo, y no digamos toda una novela corta. Sin pasear no podría hacer observaciones ni estudios. Un hombre tan inteligente y despierto como usted podrá entender y entenderá esto al instante. En un bello y dilatado paseo se me ocurren mil ideas aprovechables y útiles. Encerrado en casa, me arruinaría y secaría miserablemente. Para mí pasear no sólo es sano y bello, sino también conveniente y útil. Un paseo me estimula profesionalmente y a la vez me da gusto y alegría en el terreno personal; me recrea y consuela y alegra, es para mí un placer y al mismo tiempo tiene la cualidad de que me excita y acicatea a seguir creando, en tanto que me ofrece como material numerosos objetos pequeños y grandes que después, en casa, elaboro con celo y diligencia. Un paseo está siempre lleno de importantes manifestaciones dignas de ver y de sentir. De imágenes y vivas poesías, de hechizos y bellezas naturales bullen a menudo íos lindos paseos, por cortos que sean. Naturaleza y costumbres se abren atractivas y encantadoras a los sentidos y ojos del paseante atento, que desde luego tiene que pasear no con los ojos bajos, sino abiertos y despejados, si ha de brotar en él el hermoso sentido y el sereno y noble pensamiento del paseo. Piense cómo el poeta ha de empobrecerse y fracasar de forma lamentable si la hermosa Naturaleza maternal y paternal e infantil no le refresca una y otra vez con la fuente de lo bueno y de lo hermoso. Piense cómo para el poeta la instrucción y la sagrada y dorada enseñanza que obtiene ahí fuera, al juguetón aire libre, son una y otra vez de la mayor importancia. Sin el paseo y sin la contemplación de la Naturaleza a él vinculada, sin esa indagación tan agradable como llena de advertencias, me siento como perdido y lo estoy de hecho. Con supremo cariño y atención ha de estudiar y contemplar el que pasea la más pequeña de las cosas vivas, ya sea un niño, un perro, un mosquito, una mariposa, un gorrión, un gusano, una flor, un hombre, una casa, un árbol, un arbusto, un caracol, un ratón, una nube, una montaña, una hoja o tan sólo un pobre y desechado trozo de papel de escribir, en el que quizá un buen escolar ha escrito sus primeras e inconexas letras. Las cosas más elevadas y las más bajas, las más serias y las más graciosas, le son por igual queridas y bellas y valiosas. No puede llevar consigo ninguna clase de sensible amor propio y sensibilidad. Su cuidadosa mirada tiene que vagar y deslizarse por doquier, desinteresada y carente de egoísmo; tiene que ser siempre capaz de disolverse en la observación y percepción de las cosas, y ha de postergarse, menospreciarse y olvidarse de sí mismo, sus quejas, necesidades, carencias, privaciones, como el bravo, servicial y dispuesto al sacrificio soldado en campaña. De otro modo, pasea tan sólo con media atención y medio espíritu, y eso no vale nada. Tiene que ser capaz en todo momento de compasión, de identificación y de entusiasmo, y ojalá que lo sea. Tiene que alzarse a elevado arrebato y hundirse y saber descender a la más profunda y mínima cotidianeidad, y probablemente sabe. Pero ese fiel y entregado disolverse y perderse en los objetos y ese celoso amor por todas las manifestaciones y cosas lo hacen feliz, como todo cumplimiento de obligación hace feliz y rico en lo más íntimo a quien tiene una obligación que cumplir. Espíritu, entrega y fidelidad lo satisfacen y elevan sobre su propia e insignificante persona de paseante, que con demasiada frecuencia tiene reputación y mala fama de vagabundeo e inútil pérdida de tiempo. Sus múltiples estudios lo enriquecen y entretienen, lo calman y refinan y rozan a veces, por improbable que pueda sonar, con la ciencia exacta, lo que nadie creería del en apariencia frívolo caminante. ¿Sabe usted que mi cabeza trabaja dura y tercamente, y a menudo estoy activo en el mejor de los sentidos, cuando parezco un archigandul y persona frívola sin responsabilidad, sin pensamiento ni trabajo, perdido en el azul o en el verde, lento, soñador y perezoso, que ofrece la peor de las impresiones? Secreta y misteriosamente, siguen al paseante toda clase de hermosos y sutiles pensamientos de paseo, de tal modo que en medio de su celoso y atento caminar tiene que parar, detenerse y escuchar, que está cada vez más arrebatado y confundido por extrañas impresiones y por la hechicera fuerza del espíritu, y tiene la sensación de ir a hundirse de pronto en la tierra o de que ante sus ojos deslumbrados y confusos de pensador y poeta se abre un abismo. La cabeza se le quiere caer, y los por lo demás tan vivos brazos y piernas están como petrificados. Paisaje y gente, sonidos y colores, rostros y figuras, nubes y sol giran como sombras a su alrededor, y ha de preguntarse: «¿Dónde estoy?». Tierra y cielo fluyen y se precipitan de golpe en una niebla relampagueante, brillante, apelotonada, imprecisa; el caos empieza, y los órdenes desaparecen. Trabajosamente, el conmocionado intenta mantener su sano conocimiento; lo consigue, y sigue paseando confiado. ¿Considera usted del todo imposible que en un suave y paciente paseo encuentre gigantes, tenga el honor de ver a profesores, trate al pasar con libreros y empleados de banca, hable con futuras jóvenes cantantes y antiguas actrices, coma con ingeniosas damas, pasee por los bosques, envíe peligrosas cartas y me bata violentamente con insidiosos e irónicos sastres? Todo esto puede suceder, y creo que de hecho ha sucedido. Al paseante le acompaña siempre algo curioso, reflexivo y fantástico, y sería tonto si no lo tuviera en cuenta o incluso lo apartara de sí; pero no lo hace; más bien da la bienvenida a toda clase de extrañas y peculiares manifestaciones, hace amistad y confraterniza con ellas, porque le encantan, las convierte en cuerpos con esencia y configuración, les da formación y ánima,mientras ellas por su parte lo animan y forman. En una palabra, me gano el pan de cada día pensando, cavilando, hurgando, excavando, meditando, inventando, analizando, investigando y paseando tan a disgusto como el que más. ¡Y aunque quizá ponga la cara más complacida del mundo soy serio y concienzudo en grado sumo, y aunque no parezca más que delicado y soñador soy un sólido experto! Espero que todas estas detalladas explicaciones le convenzan de mis sinceras aspiraciones y le satisfagan plenamente. 

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

zero killed



Parece que sou das poucas pessoas que continuam a requisitar livros na biblioteca. Como não consigo comprar todos os livros que me interessam, uso a biblioteca para poder passar alguns dias com livros esgotados ou com livros que despertam a minha curiosidade mas não tenho a certeza de querer adquirir. Na última leva, trouxe dois livros do Geoff Dyer – YOGA PARA PESSOAS QUE NÃO ESTÃO PARA FAZER YOGA e MAS É BONITO – e AS COISAS QUE OS HOMENS ME EXPLICAM, de Rebecca Solnit.

Comecei pelo YOGA PARA PESSOAS QUE NÃO ESTÃO PARA FAZER YOGA e li-o até ao fim, com perseverança. O autor é culto, descontraído e a atmosfera masculina e cheia de experiências com drogas manteve-me na expectativa. Mas não passou daí. É um livro indolor, que não me acrescentou muita coisa. Devia ter desconfiado logo quando vi as doze (!) citações marketeiras dispersas pelo plano da capa. Uma delas reza assim: “Se Hunter S. Thompson, Roland Barthes, Paul Theroux e Sylvia Plath fossem de férias no mesmo corpo, talvez inventassem algo deste género. Há muito que não lia um livro tão divertido. É o meu livro do ano.” E para apimentar ainda mais a coisa, a autoria deste excerto é atribuída ao Independent on Sunday (who the fuck!) Bem-vindos à época em que o que ajuda a vender livros são pregões e não a alta literatura!



Embora ache que o Geoff Dyer não seja um autor mau, mas apenas OK (meaning: zero killed), decidi prescindir da leitura de MAS É BONITO (uma frase que eu digo muitas vezes) e segui para a leitura do aclamado livro da Rebecca Solnit. Embora desta vez não tenha sido uma menina tão bem-comportada. Três ensaios bastaram para me aperceber que embora a autora maneje autores e referências algo eruditas, o seu estilo não atinge a profundidade com que desejo desafiar-me. Interessava-me sobretudo ler o que tinha escrito sobre o mansplaining (porque a mim também me acontece muitas vezes os homens me explicarem coisas que eu sei melhor que eles) mas fiquei com a ideia de que o grande mérito do seu artigo foi mesmo o de cunhar esse termo que depois se tornou mais interessante com a sua própria disseminação.


Resumindo, desculpem se me assemelho ao velho do Restelo, mas desinteresso-me cada vez mais dos contemporâneos.

"I Nourish Myself Through Waste of Energy"


A mí me pasa lo mismo.

flop!



Soube da existência deste livro numa manhã e logo o desejei. Nesse mesmo dia, regressava a casa ao fim de tarde de metro quando julguei ver um rapaz sentado a meu lado com esse mesmo livro. Pensei que era imaginação minha – o desejo tem muitas artimanhas – mas poucos segundos depois, percebi que era mesmo o TRÊS HORAS ESQUERDAS! O rapaz era livreiro, tinha ido a uma livraria qualquer entregar aquele livro e mais alguns exemplares e dera com a cara na porta. Sorte a minha que, conquistada pelo design e materiais do livro, pude comprar um exemplar a caminho de casa!


Li-o numa hora (uma hora, não três) na manhã seguinte e fiquei algo desapontada. Já disse que o desejo tem muitas artimanhas: às vezes, o objecto desejado anuncia-se com pompa, até vem vestido com as roupagens mais charmosas mas… por alguma razão, vá-se lá entender, não ganha corpo, não se cola à pele!