domingo, 14 de janeiro de 2018

O mundo de ontem


Aqui está um dos livros que mais gostei de ler em 2017. A pretexto de uma herança de uma colecção de 264 netsuke, Edmund de Wall conta-nos a história da sua família, os Ephrussi, judeus originários de Odessa que se instalam em Paris e Viena no século XIX. Charles Ephrussi serve de inspiração a Marcel Proust como modelo do esteta Swann em Em Busca do Tempo Perdido. Apaixonado pelo coleccionismo, Charles compra os netsuke quando os objectos japoneses fazem furor nos salões parisienses,  e envia-os posteriormente como presente de casamento ao primo banqueiro em Viena. Mais tarde, três crianças brincam com a colecção, até que a História lhes cai em cima e a Segunda Guerra Mundial vota o grande império da família ao esquecimento, restando apenas essa colecção de netsuke, subtraídos do gigantesco palácio vienense, na altura ocupado pelos nazis, um a um, no bolso de uma fiel criada, e escondidos depois no seu colchão de palha.

Para além de um apaixonante livro de memórias no qual acedemos à vida de pessoas extraordinárias, é-nos também contada a tumultuosa história dessa Europa novecentista que soçobra no século XX.

LADY LAZARUS


I have done it again.
One year in every ten
I manage it -

A sort of walking miracle, my skin
Bright as a Nazi lampshade,
My right foot

A paperweight,
My face a featureless, fine
Jew linen.

Peel off the napkin
O my enemy.
Do I terrify? -

The nose, the eye pits, the full set of teeth?
The sour beath
Will vanish in a day.

Soon, soon the flesh
The grave cave ate will be
At home on me

And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.

This is Number Three.
What a trash
To annihilate each decade.

What a million filaments.
The peanut-crunching crowd
Shoves in to see

Them unwrap me hand and foot - 
The big streap tease,
Gentlemen, ladies

These are my hands
My knees.
I may be skin and bone,

Nevertheless, I am the same, identical woman.
The first time it happened I was ten.
It was an accident.

The second time I meant
To last it out and not come back at all.
I rocked shut.

As a seashell.
The had to call and call
And pick the worms off me like sticky pearls.

Dying 
Is an art, like everything else.
I do it exceptionally well.

I do it so it feels like hell.
I do it so it feels real.
I guess you could say I've a call.

It's easy enough to do it in a cell.
It's easy enough to do it and stay put.
It's the theatrical

Come back in broad day
To the same place, the same face, the same brute
Amused shout:

"A miracle!"
That knocks me out.
There is a charge

For the eyeing of my scars, there is a charge
For the hearing of my heart - 
It really goes.

And there is a charge, a very large charge
For a word or a touch
Or a bit of blood

Or a piece of my hair or my clothes.
So, so, Herr Doktor.
So, Herr Enemy.

I am your opus,
I am your valuable,
The pure gold baby

That melts to a shriek.
I turn and burn.
Do not think I underestimate your great concern.

Ash, ash-
You poke and stir.
Flesh, bone, there is nothing there-

A cake of soap,
A wedding ring,
A gold filling.

Herr God, Herr Lucifer
Beware
Beware.

Out of the ash
I rise with my red hair
And I eat men like air.

Sylvia Plath

"Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem." Bertold Brecht

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Paris 2017: esfinges, bacantes e pâtisserie. Bonnes aventures!


Le Sommeil, Auguste Rodin (Musée Rodin)


Les Causeuses ou Les Bavardes, Camille Claudel  (Musée Rodin)


L'Âge Mûr ou Le Chemin de la Vie, Camille Claudel  (Musée Rodin)


Porte de l'Enfer, Auguste Rodin (Musée d'Orsay)


Orphée, Gustave Moreau (Musée d'Orsay)


L'Énigme, Gustave Doré (Musée d'Orsay)




Erzulie et ses soeurs, Pierrot Barra (Musée du Quai Branly)



Musée Louvre


Máscara demónio teatro nô (Musée de l'Orangerie)



Bonecas Dada (Musée de l'Orangerie)


Autoportrait en Neptune, Kees van Dongen


Souvenirs de la galerie des glaces à Bruxelles, Otto Dix (Centre Pompidou)


Bildnis der Journalistin Sylvia von Harden, Otto Dix (Centre Pompidou)


Musikanten, August Sander (Centre Pompidou)



La mariée, Niki de Saint Phalle (Centre Pompidou)


The Rebellion of the dead, Nalini Malani (Centre Pompidou)



E duas caixinhas do amado Joseph Cornell!

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Fire walk with me



Termino o ano com uma constatação curiosa: comprei vários livros na Feira do Livro de Lisboa deste ano e o que mais me agradou foi um que me custou a módica quantia de 3 euros – PREPARA-TE PARA A MORTE, de May Sarton (lembrete para 2018: inspeccionar ainda mais cuidadosamente as caixas com os saldos da Cotovia na feira). Sem leviandade alguma, posso dizer que foi dos melhores livros que li este ano. É uma narrativa pequenina, lê-se bem numa noite, mas a sua escrita concentrada é carburada por uma poderosa inflamação.

Em primeiro lugar, o livro tem o mérito de nos colocar literalmente na pele e na cabeça de uma senhora solteira,Caro, professora reformada, que por um revés de saúde se vê depositada num lar para a terceira idade, à mercê dos cuidados negligentes de terceiros. Eu, que gosto de me imaginar em várias vidas e situações, já tinha dedicado algum tempo a pensar na velhice, e sempre suspeitei de que esta se assemelha a uma segunda infância, na qual nos encontramos completamente desamparados, com a grande diferença face à primeira infância que, desta vez, nos despimos até da esperança de que amanhã poderá ser um dia melhor, ou de que a vida poderá novamente começar a mexer, pois que o futuro certo é a morte, esse desenlace que sempre conhecemos mas do qual sempre desviámos o olhar, forçando-nos à distracção.

May Sartron confirma-me que não me enganei: a velhice é essa vulnerabilidade extrema, sem qualquer descanso ou possibilidade de distracção, em que um acerta as contas finais consigo mesmo. Mas PREPARA-TE PARA A MORTE E SEGUE-ME também me insinua que, nessas excursões da minha imaginação, vi apenas uma árvore e não a floresta toda. Para além do desamparo, da solidão, pode também acontecer a descredibilização, a retirada progressiva dos direitos outorgados aos adultos, uma infantilização forçada que priva progressivamente o «idoso» de razoabilidade, de dignidade e até de humanidade, no sentido mais político do termo.

Para além de todo este mundo, o livro agarrou-me num momento singular da minha vida em que me sentia particularmente invadida por uma raiva pouco lúcida, duvidando constantemente das minhas considerações e escolhas. E nessa fase, este livro foi como um braço súbito que me alcançasse a meio de um desvario e, desviando-me para uma berma, me sussurrasse : «essa raiva não é nada pouco lúcida, é preciso que escaves um pouco mais, que te interesses um pouco mais por esse mistério que és, para que possas entender como às vezes é preciso lutar pela sanidade contra tudo e contra todos».

Não sou digna, uma leprosa – uma velha sem controle sobre si própria. Quando chorei tanto naquele escuro, era uma pequena criança castigada que chorava, mas é contra isso que tenho de batalhar – o desejo de ser perdoada, de ser de novo aceite.
(…)

Desde a minha crise sinto-me desmerecedora de amor, além dos limites. E isto é a infância outra vez. Quantas vezes não me mandaram para a cama sem jantar por causa de uma birra? E como é que em toda a minha vida nunca resolvi esta raiva que há em mim? Contudo, Caro, lembra-te que a raiva é o lado mau do fogo – tu tinhas fogo, e esse fogo fez de ti uma boa professora, e às vezes uma lutadora destemida. O fogo pode ser purificador.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Da metereologia e das nuvens



Cada vez se ouve falar mais de docuficção e de romances de não-ficção. Creio que a tendência deriva de um facto essencial: não conseguimos suportar a vida apenas com base no quotidiano mas também não nos identificamos com histórias sem carnalidade. É preciso encantar novamente a vida e despertar do longo sono os deuses adormecidos e silentes.


           
O METEREOLOGISTA de Olivier Rolin poderá encaixar nessa categoria de romance de não-ficção. Mas o único mérito reside no facto do Rolin ter encontrado uma história impressionante – a história verídica de Alexei Feodossevitch Vangengheim, o metereologista da URSS, acusado, em 1934, de sabotador do socialismo e deportado para um campo de concentração e, que até à véspera da sua morte atroz, enviava à pequena filha Eleonora desenhos, herbários e adivinhas. A reprodução a cores de parte dessa correspondência, belíssimamente ilustrada, foi afinal a razão que me levou a comprar este livro.


            
A leitura flui, de forma dolorosa, indignada, pois estamos sempre a recordar-nos que aquela história aconteceu realmente – e a perguntar-nos, vezes e vezes sem conta, como foi possível? Como é possível? O livro vale sem dúvida pela história que nos revela e pela russofonia do autor mas, ainda assim, senti em certas passagens que faltava a Olivier Rolin unhas para alcançar a grande beleza do romance de não-ficção. Parece mais um diário, com as recolecções possíveis dos factos e algumas divagações, como se o autor tivesse medo de arriscar uma fusão mais empática com as suas personagens. E, no entanto, pergunto-me, será possível empatizar-se com um real tão pobre poeticamente, tão ridiculamente violento e triste? Dificilmente, creio.
            
E talvez que este livro não me tenha preenchido por completo, porque me recordava repetidamente O CASO DO CAMARADA TULAEV, muito provavelmente o melhor romance de não-ficção sobre o grande terror das purgas estalinistas. A história de Vangengheim repete o que já tinha aprendido nessa obra-prima: o motivo rídiculo pelo qual se é acusado de sabotagem do socialismo, os mecanismos dessa imparável engrenagem da morte que faz com que os inocentes acabem por confessar os crimes imaginários de que são acusados, os detractores e fuziladores que acabam também eles por ser denunciados e fuzilados, os Matveiev dessa época assombrosa…
            
É altura de apresentar Mikhail Matveiev, executor do NKVD (…). É pela sua mão, pois faz ponto de honra de não delegar a tarefa de matar, nunca se cansa de sangue, é pela sua mão que vai morrer Alexei Feodossievitch Vangengheim (…). Durante a guerra civil, participa na tomada do Palácio de Inverno (que não foi de modo algum o evento heróico fabricado por Einsenstein), mas é enquanto encarregado das execuções, um cargo que tem futuro, que integra a polícia política em 1918. Como recompensa pelo seu trabalho, que faz com paixão (ele não é de todo um «sabotador»), recebe distinções que têm nome de revólveres: Browning, Walter. Relógios de ouro, aparelhos de radio Radiola. Mimos para um carrasco. Toma portanto conta em Kem da coluna dos mil cento e dezasseis condenados das Slovoki (…).

            O lugar da execução é «na floresta», sem mais pormenor – não há outra coisa senão floresta em torno de Medvejegorsk. Cavam grandes valas, precipitam-se os condenados para dentro delas, viram-nos de barriga para baixo e matam-nos com um tiro na nuca. Não «alguém» mas ele, pessoalmente, Matveiev. Quando lhe perguntam se viu alguns dos seus homens dar uma sova aos condenados, responde que de facto aconteceu mas não chegou a ver porque estava em baixo, na cova, com o seu revólver Nagant. De vez em quando, quando se sente cansado, quando tem vontade de descomprimir, de fumar um cigarro, volta a subir e passa a tarefa ao seu adjunto, o tenente Alafer, mas, regra geral, é ele que se encontra no fim da cadeia, as suas botas na lama sanguinolenta, cheia de miolos. Todos os dias, ou antes todas as noites, porque aquelas coisas têm lugar à noite, nas noites de vinte e sete de outubro de 1937 e de um a quatro de novembro (…), ele avia entre duzentos e duzentos e cinquenta contrarrevolucionários. E, para além disso, tem de assinar as declarações que atestam que cada sentença foi executada. Em suma, trabalha a mata-cavalos, mereceu o seu relógio de ouro.

Como foi possível? Como é possível?

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Conselhos preciosos para o grande frio

Saibas, amado filho, que, se te encantes de alguém, não deves ceder indiscriminadamente ao prazer, estejas tu bêbedo ou sóbrio, porque é sabido que o sêmen que de ti irrompe é sempre germe de almas e pessoas. Não te entregues ao prazer inebriado de vinho, é coisa danosa e deletéria; melhor esperar, ao menos, que os efeitos do álcool passem. E não deixes que o prazer comande sempre que fiques excitado, pois esse é um comportamento verdadeiramente animalesco, e os animais não conhecem nem tempo nem lugar. Os homens, ao contrário, devem sempre saber o momento justo, diferenciando-se assim das feras.
 Em relação à escolha entre garotos e mulheres, não limites tua preferência a um único gênero, garotos ou mulheres, para que tu possas obter prazer de ambos os sexos, evitando assim a inimizade de um ou de outro.
 Os excessos, como te disse, são danosos, mas, saibas que a abstinência também tem seus perigos. Qualquer coisa que faças deve ser feita de acordo com teu desejo e não por obrigação, de modo que o dano seja menor.
 Havendo desejo ou não, é todavia aconselhável que te controles durante o grande calor e o grande frio. É nas duas estações extremas que as paixões produzem os efeitos mais deletérios, principalmente para os mais velhos. De todos os momentos do ano, ao invés, é a primavera, com seu clima temperado e suas fontes túrgidas, a estação mais propícia, onde a face do mundo se mostra feliz e faceira. E assim como o macrocosmo, graças à primavera rejuvenesce nosso corpo, que é o microcosmo. Os humores do corpo tornam-se temperados e o sangue de nossas veias se dilatam, assim como o sêmen nos lombos. Mesmo sem uma vontade precisa, irresistível se torna a busca por prazeres e incontrolável a necessidade de regozijos e encontros, mas se autêntico é o ardor, menor é o dano.
E assim a vida segue. Se possível não dês vazão a teus líquidos vitais no calor tórrido e no inverno rígido, e caso percebas um aumento do ardor procura reestabelecer o equilíbrio com uma dieta harmoniosa. Durante o verão dá predileção aos garotos, e reserva o inverno às mulheres, respeitando sempre um sano equilíbrio sazonal. E, se neste discurso fui breve, é porque mais não serve.
Kay Ka’us ibn Iskandar (Qābūs-nāme, séc.XI)

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Der Dopplegänger





«O desconhecido estava sentado à sua frente, também de sobretudo e chapéu, na sua cama, sorria ligeiramente, e, franzindo um pouco os olhos, acenou-lhe amigavelmente com a cabeça. O senhor Goliádkin queria gritar, mas não pode — protestar de alguma maneira, mas não lhe chegavam as forças. Tinha os cabelos em pé e sentou-se no seu lugar, insensível de horror. E de resto havia razão para isso. O senhor Goliádkin reconheceu completamente o seu amigo notcurno. O seu amigo nocturno não era outro senão ele próprio — o próprio senhor Goliádkin, outro senhor Goliádkin, mas exactamente como ele — numa palavra, aquilo a que se chama o seu duplo em todos os aspectos…»


É do mestre e vale cada pagina. Embora aparente ser um Dostoievski menor, lê-se de uma assentada, com aflição, furor e abjecção. Foi publicado quando Dostoievski tinha apenas 24 anos: já tinha começado a grande escavação psicológica donde extrairia Raskolnikóv e os irmãos Karamázov . молодец!