segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Livros alegres para pessoas tristes



Pontualmente, atravesso desertos de leitura. São momentos altamente angustiantes, esses em que me falta um livro. Pois que tenho sempre de estar a ler e quando nenhum livro me conquista, quando nada adere, sinto-me desnorteada, perdida, esvaziada de qualquer paixão pela vida – circulo então pelas estantes, como uma fera magra de savana e caça, passando os dedos pelas lombadas, inventando sortilégios e sorteios que me possam revelar a minha próxima leitura. E quando tudo falha, não me resta senão aninhar-me na minha solidão e regressar aos contos de Tchékhov.


Nabokov afirmou que “Tchékhov escrevia livros tristes para pessoas alegres; quero dizer com isto que só um leitor com sentido de humor será capaz de sentir a fundo a tristeza deles.” Tenha Nabokov razão ou não, o facto é que sempre encontro conforto na leitura dos seus contos e vários meses, ou até mesmo anos, vejo volverem-me ao pensamento algumas das suas personagens ou enredos. São todos magníficos, nenhum desilude, sobretudo porque cobrem o amplo espectro de sentimentos que compõem uma vida plenamente vivida e pensada; porém, existem alguns que me são mais queridos por que me reflectiram naquela fase exacta da vida em que os li. São eles SAUDADE, lido numa fase de luto intenso pela perda de um amigo, e INIMIGOS, lido numa altura em que pensava persistentemente no egocentrismo de algumas pessoas. Neste último, embora o narrador não tome partido por nenhuma das desgraças que se abatem quer sobre o doutor Kirílov, quer sobre o nobre Abóguin, sinto que também o meu coração se tomou dessa mesma «injusta convicção, indigna do coração humano» que acomete o doutor até ao túmulo.

“A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.”


Augusto, o palhaço melancólico


“E então, certo dia, como que numa revelação luminosa apercebeu-se de que já há muito, muito tempo, não conhecia a felicidade. A descoberta deixou-o tão agitado que ardia de impaciência por chegar ao quarto onde morava. Contudo, em vez de correr para o hotel, chamou um táxi e ordenou ao motorista que o levasse aos subúrbios da cidade. Mas onde, exactamente?, quis saber o motorista. «Em qualquer lado onde haja árvores», respondeu, nervoso. «Mas despache-se, vamos – é urgente.»

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Alda Merini


Padre, se scrivere è una colpa
perché Dio mi ha dato la parola
per parlare con trepidi linguaggi
d’amore a chi mi ascolta?
Ormai vecchia di anni e senescente,
dove trovare un filo di erba buona?
Che sai dei miei conventi, della grazia
matura delle sante, delle grandi
anime folli? Che posso io trovare
tra gli osanna dell’uomo di cultura?
Altrove è il canto, altrove è la parola
e Dio non la pronuncia.

é preciso imaginar Sísifo feliz.



«Saber se é possível viver sem apelo é tudo o que me interessa. Não quero sair deste terreno. Se esta face da vida me é dada, como é que vou ajeitar-me com ela? Ora, perante esta precaução particular, a crença no absurdo equivale a substituir a qualidade das experiências pela quantidade. Se me persuado de que esta vida não tem outra face que não seja a do absurdo, se sinto que todo o seu equilíbrio depende dessa perpétua oposição entre a minha revolta consciente e a obscuridade onde ela se debate, se admito que a minha liberdade não tem sentido a não ser em relação ao seu destino limitado, então devo dizer que o que conta não é viver melhor, mas viver mais.»

«Os deuses tinham condenado Sísifo a empurrar sem descanso um rochedo até ao cume de uma montanha, de onde a pedra caía de novo, em consequência do seu peso. Tinham pensado, com alguma razão, que não há castigo mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.
(…)
Neste, vê-se simplesmente todo o esforço de um corpo tenso, que se esforça por erguer a enorme pedra, rolá-la e ajudá-la a levar a cabo uma subida cem vezes recomeçada; vê-se o rosto crispado, a face colada à pedra, o socorro de um ombro que recebe o choque dessa massa coberta de barro, de um pé que a escora, os braços que de novo empurram, a segurança bem humana de duas mãos cheias de terra. No termo desse longo esforço, medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, a finalidade está atingida. Sísifo vê então a pedra resvalar em poucos instantes para esse mundo inferior, de onde será preciso trazê-la de novo para os cimos. E desce outra vez à planície.
É durante este regresso, esta pausa, que Sísifo me interessa. Um rosto que sofre tão perto das pedras já é, ele próprio, pedra! Vejo esse homem descer outra vez, com um andar pesado mas igual, para o tormento cujo fim nunca conhecerá. Essa hora, que é como uma respiração e que regressa, com tanta certeza como a sua desgraça, essa hora é a da consciência. Em cada um desses instantes em que ele abandona os cumes e se enterra a pouco e pouco nos covis dos deuses, Sísifo é superior ao seu destino. É mais forte que o seu rochedo.
Se este mito é trágico, é porque o seu herói é consciente. Onde estaria, com efeito, a sua tortura se a cada passo a esperança de conseguir o ajudasse? O operário de hoje trabalha todos os dias da sua vida nas mesmas tarefas, e esse destino não é menos absurdo. Mas só é trágico nos raros momentos em que ele se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão da sua miserável condição: é nela que ele pensa durante a sua descida. A clarividência que devia fazer o seu tormento consome ao mesmo tempo a sua vitória. Não há destino que não se transcenda pelo desprezo.
Se a descida se faz assim, em certos dias, na dor, pode também fazer-se na alegria. Esta palavra não é de mais.
(…)
Não há sol sem sombra e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e o seu esforço nunca mais cessará. Se há um destino pessoal, não há destino superior ou, pelo menos, só há um, que ele julga fatal e desprezível. Quanto ao resto, ele sabe-se senhor dos seus dias.
(…)

Deixo Sísifo no sopé da montanha! Encontramos sempre o nosso fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também julga que tudo está bem. Esse universo enfim, sem dono, não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.»

Be my knife

UMA FACA SÓ LÂMINA
(ou: serventia das idéias fixas)

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado

qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso,
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

A.

Seja bala, relógio,
ou a lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva.

Mas o que não está
nele está como bala:
tem o ferro do chumbo,
mesma fibra compacta.

Isso que não está
nele é como um relógio
pulsando em sua gaiola,
sem fadiga, sem ócios.

Isso que não está
nele está como a ciosa
presença de uma faca,
de qualquer faca nova.

Por isso é que o melhor
dos símbolos usados
é a lâmina cruel
(melhor se de Pasmado):

porque nenhum indica
essa ausência tão ávida
como a imagem da faca
que só tivesse lâmina,

nenhum melhor indica
aquela ausência sôfrega
que a imagem de uma faca
reduzida à sua boca,

que a imagem de uma faca
entregue inteiramente
à fome pelas coisas
que nas facas se sente.

B.

Das mais surpreendentes
é a vida de tal faca:
faca, ou qualquer metáfora,
pode ser cultivada.

E mais surpreendente
ainda é sua cultura:
medra não do que come
porém do que jejua.

Podes abandoná-la,
essa faca intestina:
jamais a encontrarás
com a boca vazia.

Do nada ela destila
a azia e o vinagre
e mais estratagemas
privativos dos sabres.

E como faca que é,
fervorosa e energética,
sem ajuda dispara
sua máquina perversa:

a lâmina despida
que cresce ao se gastar,
que quanto menos dorme
quanto menos sono há,

cujo muito cortar
lhe aumenta mais o corte
e se vive a se parir
em outras, como fonte.

(Que a vida dessa faca
se mede pelo avesso:
seja relógio ou bala,
ou seja faca mesmo.)

C.

Cuidado com o objeto,
com o objeto cuidado,
mesmo sendo uma bala
desse chumbo ferrado,

porque seus dentes já
a bala os traz rombudos
e com facilidade
se em botam mais no músculo.

Mais cuidado porém
quando for um relógio
com o seu coração
aceso e espasmódico.

É preciso cuidado
por que não se acompasse
o pulso do relógio
com o pulso do sangue,

e seu cobre tão nítido
não confunda a passada
com o sangue que bate
já sem morder mais nada.

Então se for faca,
maior seja o cuidado:
a bainha do corpo
pode absorver o aço.

Também seu corte às vezes
tende a tornar-se rouco
e há casos em que ferros
degeneram em couro.

O importante é que a faca
o seu ardor não perca
e tampouco a corrompa
o cabo de madeira.

D.

Pois essa faca às vezes
por si mesma se apaga.
É a isso que se chama
maré-baixa da faca.

Talvez que não se apague
e somente adormeça.
Se a imagem é relógio,
a sua abelha cessa.

Mas quer durma ou se apague:
ao calar tal motor,
a alma inteira se torna
de um alcalino teor

bem semelhante à neutra
substância, quase feltro,
que é a das almas que não
têm facas-esqueleto.

E a espada dessa lâmina,
sua chama antes acesa,
e o relógio nervoso
e a tal bala indigesta,

tudo segue o processo
de lâmina que cega:
faz-se faca, relógio
ou bala de madeira,

bala de couro ou pano,
ou relógio de breu,
faz-se faca sem vértebras,
faca de argila ou mel.

(Porém quando a maré
já nem se espera mais,
eis que a faca ressurge
com todos seus cristais.)

E.

Forçoso é conservar
a faca bem oculta
pois na umidade pouco
seu relâmpago dura

(na umidade que criam
salivas de conversas,
tanto mais pegajosas
quanto mais confidências).

Forçoso é esse cuidado
mesmo se não é faca
a brasa que te habita
e sim relógio ou bala.

Não suportam também
todas as atmosferas:
sua carne selvagem
quer câmaras severas.

Mas se deves sacá-los
para melhor sofrê-los,
que seja em algum páramo
ou agreste de ar aberto.

Mas nunca seja ao ar
que pássaros habitem.
Deve ser a um ar duro,
sem sombra e sem vertigem.

E nunca seja à noite,
que esta tem as mãos férteis.
Aos ácidos do sol
seja, ao sol do Nordeste,

à febre desse sol
que faz de arame as ervas,
que faz de esponja o vento
e faz de sede a terra.

F.

Quer seja aquela bala
ou outra qualquer imagem,
seja mesmo um relógio
a ferida que guarde,

ou ainda uma faca
que só tivesse lâmina,
de todas as imagens
a mais voraz e gráfica,

ninguém do próprio corpo
poderá retirá-la,
não importa se é bala
nem se é relógio ou faca,

nem importa qual seja
a raça dessa lâmina:
faca mansa de mesa,
feroz pernambucana.

E se não a retira
quem sofre sua rapina,
menos pode arrancá-la
nenhuma mão vizinha.

Não pode contra ela
a inteira medicina
de facas numerais
e aritméticas pinças.

Nem ainda a polícia
com seus cirurgiões
e até nem mesmo o tempo
como os seus algodões.

E nem a mão de quem
sem o saber plantou
bala, relógio ou faca,
imagens de furor.

G.

Essa bala que um homem
leva às vezes na carne
faz menos rarefeito
todo aquele que a guarde.

O que um relógio implica
por indócil e inseto,
encerrado no corpo
faz este mais desperto.

E se é faca a metáfora
do que leva no músculo,
facas dentro de um homem
dão-lhe maior impulso.

O fio de uma faca
mordendo o corpo humano,
de outro corpo ou punhal
tal corpo vai armando,

pois lhe mantendo vivas
todas as molas da alma
dá-lhes ímpeto de lâmina
e cio de arma branca,

além de ter o corpo
que a guarda crispado,
insolúvel no sono
e em tudo quanto é vago,

como naquela história
por alguém referida
de um homem que se fez
memória tão ativa

que pôde conservar
treze anos na palma
o peso de uma mão,
feminina, apertada.

H.

Quando aquele que os sofre
trabalha com palavras,
são úteis o relógio,
a bala e, mais, a faca.

Os homens que em geral
lidam nessa oficina
têm no almoxarifado
só palavras extintas:

umas que se asfixiam
por debaixo do pó
outras despercebidas
em meio a grandes nós;

palavras que perderam
no uso todo o metal
e a areia que detém
a atenção que lê mal.

Pois somente essa fraca
dará a tal operário
olhos mais frescos para
o seu vocabulário

e somente essa faca
e o exemplo de seu dente
lhe ensinará a obter
de um material doente

o que em todas as facas
é a melhor qualidade:
a agudeza feroz ,
certa eletricidade,

mais a violência limpa
que elas têm, tão exatas,
o gosto do deserto,
o estilo das facas.

I.

Essa lâmina adversa,
como o relógio ou a bala,
se torna mais alerta
todo aquele que a guarda,

sabe acordar também
os objetos em torno
e até os próprios líquidos
podem adquirir ossos.

E tudo o que era vago,
toda frouxa matéria,
para quem sofre a faca
ganha nervos, arestas.

Em volta tudo ganha
a vida mais intensa,
com nitidez de agulha
e presença de vespa.

Em cada coisa o lado
que corta se revela,
e elas que pareciam
redondas como a cera

despem-se agora do
caloso da rotina,
pondo-se a funcionar
com todas suas quinas.

Pois entre tantas coisas
que também já não dormem,
o homem a quem a faca
corta e empresta seu corte,

sofrendo aquela lâmina
e seu jato tão frio,
passa, lúcido e insone,
vai fio contra fios.

*

De volta dessa faca,
amiga ou inimiga,
que mais condensa o homem
quanto mais o mastiga;

de volta dessa faca
de porte tão secreto
que deve ser levada
como o oculto esqueleto;

da imagem em que mais
me detive, a da lâmina,
porque é de todas elas
certamente a mais ávida;

pois de volta da faca
se sobe à outra imagem,
àquela de um relógio
picando sob a carne,

e dela àquela outra,
a primeira, a da bala,
que tem o dente grosso
porém forte a dentada

e daí à lembrança
que vestiu tais imagens
e é muito mais intensa
do que pôde a linguagem,

e afinal à presença
da realidade, prima,
que gerou a lembrança
e ainda a gera, ainda,

por fim à realidade,
prima, e tão violenta
que ao tentar apreendê-la toda imagem rebenta.


João Cabral de Melo Neto


La noche oscura del alma



    Canciones del alma que se goza de haber llegado al 
    alto estado de la perfección, que es la unión con Dios,
    por el camino de la negación espiritual.


  En una noche oscura,
con ansias en amores inflamada,
(¡oh dichosa ventura!)
salí sin ser notada,
estando ya mi casa sosegada.                     

  A oscuras y segura,
por la secreta escala disfrazada,
(¡oh dichosa ventura!)
a oscuras y en celada,
estando ya mi casa sosegada.                     

  En la noche dichosa,
en secreto, que nadie me veía,
ni yo miraba cosa,
sin otra luz ni guía                              
sino la que en el corazón ardía.                 

  Aquésta me guïaba
más cierta que la luz del mediodía,
adonde me esperaba
quien yo bien me sabía,
en parte donde nadie parecía.                    

  ¡Oh noche que me guiaste!,
¡oh noche amable más que el alborada!,
¡oh noche que juntaste
amado con amada,
amada en el amado transformada!                  

  En mi pecho florido,
que entero para él solo se guardaba,
allí quedó dormido,
y yo le regalaba,
y el ventalle de cedros aire daba.               

  El aire de la almena,
cuando yo sus cabellos esparcía,
con su mano serena
en mi cuello hería,
y todos mis sentidos suspendía.                  

  Quedéme y olvidéme,
el rostro recliné sobre el amado,
cesó todo, y dejéme,
dejando mi cuidado
entre las azucenas olvidado. 

San Juan de la Cruz

Da orfandade


Não me canso de recomendar esta série. Uma dos melhores tratados trágico-cómicos do niilismo existencial que já vi. Simultaneamente angustiante e hilariante. São três temporadas e não desilude: ide ver!

domingo, 1 de outubro de 2017

the fire next time

Eis dois livros que não me impressionaram particularmente, apesar das elevadas expectativas.



Percebo que WAYS OF SEEING, de John Berger, tenha constituído uma enorme inovação nos anos 70, com as suas reflexões sobre o impacto da reprodutibilidade técnicas nas imagens da arte, a objectualização da mulher e da nudez, as relações do poder – patriarcal e capitalista – com arte, o papel da publicidade na reprodução da dominação social, etc., mas hoje é uma leitura que me acrescenta pouco. Ainda assim, percebo que este livro tenha tido o mérito de motivar o aprofundamento destes temas nos anos que se lhe seguiram.



THE FIRE NEXT TIME, de James Baldwin, não me satisfez por outros motivos. Primeiro, achei que, embora tais reflexões possam também abranger a realidade europeia, se centrava muito na perspectiva americana; depois, tive alguma dificuldade em relacionar-me com a religiosidade do autor. No entanto, também aqui pressenti um mérito pioneiro e uma enorme coragem.


If we – and now I mean the relatively conscious whites and the relatively conscious blacks, who must, like lovers, insisto n, or create, the consciousness of the others – do not falter in our dusty now, we may be able, handful that we are, to end the racial nightmare, and achieve our country, and change the history of the world. If we do not now dare everything, the fulfillment of that prophecy, re-created from the Bible in a song by a slave, is upon us: God gave Noah the rainbow sign, No more water, the fire next time!

tell me a riddle



Tillie Olsen: mais uma grande autora que eu desconhecia, revelada pela poderosa Antígona. Tive alguma dificuldade inicial em alinhar com o estilo de escrita mas cheguei ao final da leitura dos 4 contos completamente de joelhos. Neles se escreve sobre as adversidades que afectam as classes desprivilegiadas, sobre a segregação, a solidão e sobretudo sobre «os silêncios que impedem vidas de se converter em escrita». O conto final, CONTA-ME UMA ADIVINHA, que intitula a antologia, e a sua protagonista Eva, uma velha matriarca em guerra contra a sociedade patriarcal, dobrou-me a espinha, obrigando-me a ler o final de olhos marejados.

Reabriam-se velhas cicatrizes e as feridas infectavam de novo. Tchekov, nem mais. Ela pensou sem brandura na jovem esposa que, altas horas da noite, amamentando o bebé do momento, e quem sabe com outro ao colo, tentava manter-se acordada no pouco tempo, o único, que tinha para ler. Quando ele chegava tarde de uma reunião e a encontrava assim, ela sentia-lhe na face a atmosfera exterior, e ele, fremente e excitado, cheirava-lhe a pele, provocador: ‘Vou pôr o bebé na cama e tu… arruma o livro, não leias, não leias.
(…)
(Toda a vida me deitou vinagre: estou bem marinada. Como posso agora ser só mel?)
(…)

No entanto, enquanto falava, lembrou-se de que ela nem sempre estivera isolada, nem sempre quisera estar só (pois sabia que houvera uma voz antes daquele frágil fio; antes da voz rouca que cortava o silêncio para fustigar, implicar, para o envergonhar: uma eloquente voz de rapariga que pronunciava os sonhos mais sagrados de ambos). Mas mais uma vez foi incapaz de reconstituir, de imaginar o que houvera antes, nem quando ou como tinha mudado.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

INTO THE INFERNO



O DIA EM QUE GOTTFRIED BENN PEGOU ONDA


(Tauchen mußt du können, mußt du lernen […])

É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo. É preciso aprender.
Há dias de sol por cima da prancha,
há outros, em que tudo é caixote, vaca,
caldo. É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo, é preciso aprender
a persistir, a não desistir, é preciso,
é preciso aprender a ficar submerso,
é preciso aprender a ficar lá embaixo,
no círculo sem luz, no furacão de água
 que o arremessa ainda mais para baixo,
onde estão os desafiadores dos limites
humanos. É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo, a persistir, a não desistir,
a não achar que o pulmão vai estourar,
a não achar que o estômago vai estourar,
que as veias salgadas como charque
 vão estourar, que um coral vai estourar
os miolos – os seus miolos –, que você
nunca mais verá o sol por cima da água.
É preciso aprender a ficar submerso, a não
falar, a não gritar, a não querer gritar
quando a areia cuspir navalhas em seu rosto,
quando a rocha soltar britadeiras
em sua cabeça, quando seu corpo
se retorcer feito meia em máquina de lavar,
é preciso ser duro, é preciso aguentar,
é preciso persistir, é preciso não desistir.
É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo, é preciso aprender
a aguentar, é preciso aguentar
esperar, é preciso aguentar esperar
até se esquecer do tempo, até se esquecer
do que se espera, até se esquecer da espera,
é preciso aguentar ficar submerso
até se esquecer de que está aguentando,
é preciso aguentar ficar submerso
até que o vulcão de água, voluntarioso,
arremesse você de volta para fora dele.


Alberto Pucheu

Decisões da rentrée


Trouble in body



LANÇAMENTO 23 SET | SAB | 16H | CINEMA SÃO JORGE | QUEER LISBOA

Vinte e sete anos após a sua publicação original, GENDER TROUBLE está finalmente disponível em Portugal. Trata-se de um dos textos mais importantes da teoria feminista e dos estudos de género. Ao definir o conceito de género como performatividade – isto é, como algo que se constrói e que é, em última análise, uma performance – PROBLEMAS DE GÉNERO repensou conceitos do feminismo e lançou os alicerces para a teoria queer, revolucionando a linguagem dos activismos.


«Os debates feministas contemporâneos em torno dos significados de género levam, uma e outra vez, a uma certa sensação de problema, como se a indeterminação do género pudesse culminar no fracasso do feminismo. Talvez a palavra problema não precisasse de carregar uma valência tão negativa. Arranjar problemas, no discurso reinante da minha infância, era algo que nunca deveríamos fazer precisamente porque isso nos meteria em problemas. A rebelião e a respectiva reprimenda pareciam estar enredadas nos mesmos termos, fenómeno que deu origem à minha primeira percepção crítica sobre o subtil ardil do poder: a lei prevalecente ameaçava-nos como problemas, até nos metia em problemas, tudo para não termos problemas.»

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Gloria Anzaldúa


The actual physical borderland that I’m dealing with in this book is the Texas-U.S Southwest/Mexican border. The psychological borderlands, the sexual boundaries and the spiritual borderlands are not particular to the Southwest.
(…)
I am a border woman. I grew up between two cultures, the Mexican (with a heavy Indian influence) and the Anglo (as a member of a colonized people in our own territory). I have been straddling that tejas-Mexican border, and others, all my life. It’s not a comfortable territory to live in, this place of contradictions. Hatred, anger and exploitation are the prominente features of this landscape.
However, there have been compensations for this mestiza, and certain joys.
(…)
Books saved my sanity, knowledge opened the locked places in me and thaught me first how to survive and the how to soar. La madre naturaleza succored me, allow me to grow roots that anchored me to the earth. My love of images – mesquite flowering, the wind, Ehécatl, whispering its secret knowledge, the fleeting images of the soul in fantasy – and words, my passion for the daily struggle to render them concrete in the world and on paper, to render them flesh, keeps me alive.
(…)
After each of my four bouts with death I’d catch glimpses of an otherworld Serpent. Once, in my bedroom, I saw a cobra the size of the room, her hood expanding over me. When I blinked she was gone. I realized she was, in my psyche, the mental picture and symbol of the instinctual in its collective impersonal, pre-human. She, the symbol of the dark sexual drive, the chthonic (underworld), the feminine, the serpentine movement of sexuality, of creativity, the basis of all energy and life.
(…)
Four years ago a red snake crossed my path as I walked through the woods. The direction of its movement, its place, its colors, the “mood” of the trees and the wind and the snake – they all “spoke” to me, told me things. I look for omens everywhere, everywhere catch glimpses of the patterns and cycles of my life. Stones “speak” to Luisah Teish, a Santera; trees whisper their secrets to Chrystos, a Native American. I remember listening to the voices of the wind as a child and understanding its messages. Los espíritus that ride the back of the south wind. I remember their exhalation blowing in through the slits in the door during those hot Texas afternoons. A gust of wind raising the linoleum under my feet, buffeting the house. Everything trembling.
We’re not supposed to remember such otherworldy events. We’re supposed to ignore, Forget, kill those fleeting images of the  soul’s presence and of the spirit’s presence. We’ve been thought that the spirit is outside our bodies or above our heads somewhere up in the sky with God. We’re supposed to forget that every cell in our bodies, every bone and bird and worm has spirit in it.
(…) White anthropologists claim that Indians have “primitive” and therefore deficient minds, that we cannot think in the higher mode of consciousness – rationality. They are fascinated by what they cal the “magical” mind, the “savage” mind, the participation mystique of the mind that says the world of the imagination – the world of the soul – and of the spirit is just as real as physical reality. In trying to become “objective”, Western culture made “objects” of things and people when it distanced itself from them, thereby loosing “touch” with them. This dichotomy is the root of all violence.
(…)
So I grew up in the interface between trying not to give countenance to el mal aigre, evil non-human, non-corporeal entities riding the wind, that could come in through the window, through my nose with my breath. I was not supposed to believe in susto, a sudden shock or fall that frightens the soul of the body. And growing up between such opposing spiritualities how could I reconcile the two, the pagan and the Christian?
No matter to what use my people put the supranatural world, it is evident to me now that the spirit world, whose existence the whites are so adamant in denying, does in fact exist. This very minute I sense the rpesence of the spirits of my ancestors in my room. And I think la Jila is Cihuacoalt, Snake Woman; she is la Llorona, Daughter of Night, travelling the dark terrains of the unkown searching for the lost parts of herself. I remembre la Jila following me once, remembre her eerie lamente. I’d like to think that she was crying for her lost children, los Chicanos/mexicanos.

Music is humanly organized sound



The Venda taught me that music can never be a thing in itself, and that all music is folk music, in the sense that music cannot be transmited or have meaning without associations between people. Distinctions between the surface complexity of diferent musical Styles and techniques do not tell us anything useful about the expressive purposes and power of music, or about the intelectual organization involved in this creation. Music is too deeply concerned with human feelings and experiences in society, and its patterns are too often generated by surprising outbursts of unconscious cerebration, for it to be subject to arbitrary rules, like the rules of games. Many, if not all, of music’s essential processes may be found in the constitution of the human body and in patterns of interaction of human bodies in society. Thus all music is structurally, as well as functionally, folk music. The makers of “art” music are not innately more sensitive or cleverer than “folk” musicians: the structures of their music simply express, by processes similar to those in Venda music, the numerically larger systems of interaction of folk in their societies, the consequences of a more extensive division of labor, and an accumulated technological tradition.

Because we are born and we die, but in between we give this purporseless existence a meaning by our drives.



Este livro figura na lista dos 100 livros favoritos do David Bowie. Não foi por isso que o encontrei, mas sim porque me foi recomendado por uma leitora que muito prezo. E a leitura foi muito recompensadora. Cheia de pequeninos encantos, como por exemplo, descobrir que as repetidas bocas abertas nas pinturas de Bacon se inspiram num livro de doenças da boca humana que o pintor encontrou ainda muito jovem.

DS: So you might well have been interested in painting open mouths and teeth even if you hadn’t been painting the scream?
FB: I think I might. And I’ve always wanted and never succeeded in painting the smile.

(…)
FB: If I go into a butcher’s shop I always think it’s surprising that I wasn’t there instead of the animal.

(…) if life excites you, its opposite, like a shadow, death, must excite you.
(…) Ah, well, you can be optmistic and totally without hope. One’s basic nature is totally without hope, and yet one’s nervous system is made out of optimistic stuff.
(…)
DS: At what age did you come to realize that death was going to happen to you too?
FB: I realized when I was seventeen. I remembre it very, very clearly. I remembre looking at a dog-shit on the pavement and I suddenly realized, there i tis – this is what life is like.
(…)

But I don’t think I’m gifted. I just think I’m receptive.
(…)
If I go to the National Gallery and I look a tone of the great paintings that excite me there, as that the painting unlocks all kinds of valves of sensation within me which return me to life more violently.
(…)

I think that people are so attached to their egos that they’d probably rather have the torment than simple annihilation.
DS: You’d prefer the torment yourself?
FB: Yes, I would, because if I was in hell I would always feel I had a chance of escaping. I’d always be sure that I’d be able to escape.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

EPÍSTOLA SOBRE A MERDA


As retretes transformadas em santuários:
eis a minha obcessão

A merda é uma boa causa
Demasiado boa
para que alguém lute por ela

Só é poeta aquele que
é capaz de comer as próprias fezes

A merda é a única coisa
que não se pode conspurcar


Jorge de Sousa Braga, De manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu, Fenda

domingo, 3 de setembro de 2017

Podemos apaixonar-nos por uma personagem?


Rust Cohle, True Detective, Season 1.

Contos do país dos sufis



Dos vários contos, os que mais me cativaram foram os de Fariduddin Attar, nomeadamente A CONFERÊNCIA DAS AVES e TAMBÉM ISTO HÁ-DE PASSAR, cujos resumos se apresentam abaixo.

A CONFERÊNCIA DAS AVES

Um certo número de aves entendeu um dia que deveria ter um rei. Tomada a decisão, pediram a uma sábia e prudente poupa – um pássaro com uma crista em feitio de leque – que lhes concedesse ajuda na busca do rei. A poupa disse-lhe que o rei por que ansiavam tinha o nome de Simurgh, o que no idioma persa significa «trinta aves», e que vivia num esconderijo da montanha de Kaf; e disse-lhes também que a viagem até esse sítio era perigosa e difícil. As aves imploram à poupa que as guiasse. A poupa deu o seu acordo e começou a instruir as aves uma a uma, tendo em conta os diversos níveis de entendimento e os variados temperamentos individuais. Fez-lhes saber que, para alcançarem o cume da montanha, teriam de passar por cinco vales e dois desertos; depois de haverem atravessado o último deserto, então poderiam entrar no palácio do rei.
(…)
Depois a poupa deliciou as outras aves, contando-lhes histórias prodigiosas sobre aqueles que já haviam empreendido a perigosa jornada. Attar usa um vastíssimo imaginário simbólico e, tal como na história do rouxinol, cada um dos contos oferece ao leitor o deleite da contemplação de um mais profundo significado.
(…)
Depois de haverem ouvido a poupa a descrever-lhes o que as esperava, as aves ficaram tão excitadas que imediatamente reataram a jornada. Durante o caminho, algumas morreram de calor e outra afogaram-se no mar; também houve as que foram vencidas pelo cansaço e não puderam continuar; animais bravios caçaram umas tantas e ainda outras cederam às tentações dos lugares por onde passavam e assim se distraíram e perderam, e para trás foram deixadas. Apenas trinta de todas aquelas aves lograram alcançar o seu destino – a Montanha de Kaf.
À entrada do palácio do rei, o guarda-portão tratou as trinta aves de modo muito pouco amistoso. Mas as aves, que já tinham passado pelo pior, foram tolerantes e não consentiram que aquela agressividade as perturbasse. Finalmente, o servo privado do rei saiu para as receber e acompanhar até ao salão do rei. Assim que entraram no salão, as aves olharam em redor, tomadas de espanto. Não entenderam o que estava a acontecer, pois em vez de verem Simurgh, aquelas trinta aves tudo o que viam era… trinta aves. Por fim perceberam que, ao olharem para elas próprias, haviam achado o rei e que, na sua demanda do rei, se haviam encontrado a elas próprias.
Todos aqueles que passam pelas sete cidades do Amor estão purificados. Quando chegam ao palácio do rei, encontram o rei revelado no espelho dos seus corações.

TAMBÉM ISTO HÁ-DE PASSAR

(…) O dervixe permaneceu horas por entre as ruínas do cemitério, sem levantar os olhos do chão. Finalmente ergueu a cabeça e olhou para o céu. E, como se houvesse descoberto o significado profundo de uma grande lição, disse, abanando a cabeça em sinal de confirmação: «Também isto há-de passar!»
Quando por fim atingiu uma idade em que a velhice o impediu de prosseguir as suas viagens, decidiu instalar-se definitivamente e passar o resto da vida em paz e sossego. Os anos foram correndo e o velho dervixe passava o tempo auxiliando os que até ele vinham em busca de bom conselho e partilhando com os jovens os ensinamentos adquiridos com a experiência da sua vida. De todo o lado chegava gente para colher os benefícios da sua sabedoria. Um dia chegou aos ouvidos do principal conselheiro do rei, que andava precisamente procurando alguém dotado de grande saber e muita experiência.
A causa dessa busca era apenas o desejo que o rei tinha de mandar fazer um anel à sua medida. Mas este anel teria de respeitar uma condição muito particular: teria de ter gravada uma inscrição tal que o rei, ao olhar para o anel e ler a gravação, ficaria alegre e feliz se estivesse triste e se, pelo contrário, se sentisse feliz e alegre, ficaria triste.
Foram convocados os melhores joalheiros e de todo o lado vieram homens e mulheres com ideias e propostas para a inscrição. Nenhuma, porém, mereceu o agrado do rei. Assim, o conselheiro escreveu uma carta ao dervixe, dando-lhe conta da situação, pedindo ajuda e convidando-o a visitar o palácio. Sem abandonar a sua casa, o dervixe não perdeu tempo em remeter uma resposta.
Alguns dias depois foi apresentado ao rei um anel de esmeraldas, acabado de fazer. O rei, que tinha passado os últimos dias mergulhado em tristeza, pôs com relutância o anel no dedo e com negligência lançou-lhe um olhar distraído. De súbito sorriu e, instantes depois, ria às gargalhadas. No anel estavam gravadas estas palavras: «Também isto há-de passar!»

Esculpir o tempo


A história da arte está sempre por recomeçar. Cada novo sintoma reconduz-nos à origem.


Que relação da história com o tempo nos impõe a imagem? Fazer história da arte será mesmo fazer história, no sentido em que é habitualmente entendida e practicada? Em DIANTE DO TEMPO, Georges Didi-Huberman aprofunda estas questões e recupera uma arqueologia crítica dos modelos temporais na história da arte. No centro do debate estão os contributos de Aby Warburg, Walter Benjamin e Carl Einstein, pesadores do anacrónico e principais eixos de uma mudança epistemológica que coloca a imagem no centro da historicidade e instaura uma temporalidade complexa, animada pelo sintoma, conceito operatório que desvela o inconsciente do tempo e da representação.

Paula Rego


Um dos melhores documentários que vi este ano.

Açores: ilhas vulcânicas, caldeiras, baleeiros, netsukes e o canto jocoso das cagarras - home is where your heart is!